Cidadania na Suécia

Assisti a uma conferência na FPCEP no dia 10 de Fevereiro, tendo como tema, a cidadania na Suécia contemporânea. A conferencista, Kerstin Jacobsson, apresentou um estudo sociológico, baseado em entrevistas qualitativas conduzidas em 2006 e 2007, a 60 cidadãos suecos, com o objectivo de perceber o que os suecos pensavam sobre a sociedade, o Estado, bem como as questões de solidariedade.

Nas suas entrevistas, os inquiridos expressaram sobre a sociedade um sentimento de pertença vincado; a sociedade não é algo que surja de forma espontânea e sem esforço, requer cooperação:

– “Pessoas que são dependentes umas das outras, trabalhando em conjunto” (homem, 21 anos, estudante);

“Sociedade significa comunidade e obrigações. Existem regras que devem ser seguidas e pelas quais devemos assumir responsabilidades. Existem direitos e obrigações” (homem, 40 anos, reformado por invalidez)

“A sociedade é criada pelos indivíduos de forma a criarem um colectivo melhor para todas as pessoas, quando comparado ao que aconteceria se cada um batalhasse sozinho. E é claro que isso exige solidariedade e concessões e compromissos para que funcione” (homem, 66 anos, executivo).

“Sociedade é aquilo que construímos juntos” (homem, 64 anos, desempregado).

“Uma sociedade que funciona é a melhor coisa para todos, para toda a gente. Independentemente do tipo de pessoa que és, se és milionário ou o que quer que sejas, a sociedade deve funcionar para todos, em igualdade de condições” (homem, 48 anos, doença prolongada).

Também fica claro nas entrevistas, que fazem uma distinção entre a sociedade e o Estado. A sociedade de que falam não tem conotações com identidade nacional. É muito mais abstrata e impessoal. Pode ser compreendida como uma comunidade imaginada, uma “consciência cívica”. E a cidadania não é apenas uma coisa formal. A noção de “cidadãos da sociedade” é usada de forma espontânea pelos imigrados suecos e refere-se a um nacionalismo cívico e não a um nacionalismo étnico. A noção de “cidadania societal”, é usada vivamente no discurso corrente na Suécia.

No entanto, para qualificar um “nós”, é necessário cumprir certas obrigações e as pessoas vêem o seu trabalho como um contributo para a sociedade, não apenas como um esforço individual e uma realização pessoal. É através do trabalho remunerado e do pagamento de impostos que cada um faz  “a parte que lhe compete”, nomeadamente “levar a nossa palha para o formigueiro”, expressão frequentemente usada nas entrevistas.

“Toda a gente pode contribuir com algo. Gostava de ter uma sociedade na qual todos os indivíduos tivessem a oportunidade de usar os seus recursos, o seu talento” (mulher, 41 anos, trabalhadora)

“A ideia base é de que cada pessoa que pode contribuir com algo, deve contribuir com isso” (homem, 49 anos, trabalhador por conta própria)

Não aproveitar o potencial contributo que as pessoas podem dar é um desperdício de recursos colectivos.Os inquiridos demonstraram ter consciência e preocupação com o facto de nem todas as pessoas terem a mesma possibilidade de contribuir, mas que cada um deve contribuir para o bem comum de acordo com as suas capacidades.

O Desemprego é,nesta perspectiva, um desperdício de recursos e também uma potencial ameaça para a coesão social.Contribuir para a sociedade não é opcional, é obrigatório.

“Não consigo compreender aqueles que preferem passar o dia inteiro em casa em vez de estarem lá fora a trabalhar, tornarem-se indivíduos, bons em alguma coisa, contribuindo para uma sociedade economicamente próspera” (homem, 49 anos, trabalhador por conta própria)

“Ficam sentados no sofá, sem se preocuparem, não sendo activos, recebendo apoios sociais sem necessidade” (mulher, 36 anos, trabalhadora por conta própria)

Dar o seu contributo para a sociedade através do trabalho, pagar impostos e não abusar dos benefícios sociais, parecem ser as virtudes mais importantes de um cidadão, para além do respeito pela lei.

Para que uma pessoa se sinta “parte da sociedade” é muito importante que se consiga sustentar, garantir a sua própria autonomia. Isto é melhor conseguido através do trabalho remunerado mas, se tal não for possível, pode ser obtido através de benefícios sociais.

Ao contrário de muitos países europeus, na Suécia, o sistema social, bem como o sistema de impostos, baseia-se no individuo e não na família. Por exemplo, cada pessoa é tributada individualmente e o rendimento familiar é irrelevante para a atribuição de bolsas aos alunos universitários. Todos os alunos recebem uma bolsa e o nível desta é calculado a partir do seu próprio rendimento. Mas neste caso, a preocupação do Estado é promover a autonomia do individuo, libertando-o da dependência da família, do bairro, das igrejas e organizações de caridade. É uma espécie de contrato social entre o Estado e o individuo,e o pré-requisito é uma ampla noção da importância de se ser independente em relação aos outros, de não se ser subordinado ou estar em dívida, quer isso diga respeito a condições económicas, emocionais ou sociais. Os sistemas universais de solidariedade social permitem que o individuo mantenha a sua autonomia, enquanto que os sistemas selectivos e avaliativos acentuam a dependência, e além disso tendem a ser estigmatizantes.Essa autonomia é um valor importante na Suécia, no qual as coisas mais importantes que os pais deveriam ensinar aos seus filhos são a independência e a autonomia (a honestidade também). Na maior parte do mundo a obediência vem em primeiro lugar, mas na Suécia ela aparece num patamar mais baixo.

O projecto moral do Estado-providência sueco é o de libertar os indivíduos e de maximizar a sua autonomia, sem que aconteça à custa dos outros. Daí a noção de que o componente principal da solidariedade assenta no direito à autonomia e realização democrática da liberdade individual.

Visitei a Suécia (Estocolmo e Nyköping) em Junho de 2011. Este estudo sociológico pouco me surpreendeu, veio apenas consolidar o que eu já pensava sobre a consciência cívica dos suecos. Registo alguns apontamentos sobre o que me surpreendeu neste país.

– Uma relação estranha com a luminosidade. Em Junho, só à meia- noite ficava escuro e por poucas horas!

– Uma ligação profunda à história e à arte. A Câmara Municipal (City Hall), foi construída em 1923 e embora pareça que tenha muitos séculos de existência, a ideia era mesmo parecer muito velha, no estilo nacional-romântico. É neste edifício, no salão azul, que se realiza todos os anos no dia 10 de Dezembro, a entrega dos prémios Nobel.

Por vontade do Nobel em testamento, o prémio da Paz, é atribuído em Oslo, na Noruega. Neste hall entregam-se os prémios de Química, Literatura, Fisiologia/Medicina, Física e Economia. Aqui esteve José Saramago em 1998!

– A arte e design está presente nos edifícios mais modernos.Estas varandas de vidro parece que reflectem sombras de árvores.

– Um Bar do Gelo, com uma temperatura de 5 graus negativos célsius. Para entrarmos necessitamos de vestir um fato especial e se não bebemos a vodka depressa, os copos derretem.

– O “Titanic” dos suecos. O “Vasa”, uma embarcação luxuosa mandada fazer por um rei em 1628 e que se afundou na sua viagem inaugural no porto de Estocolmo. Foi resgatada das águas por outro rei, 333 anos depois, constituindo uma grande atracção turística.


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4 responses

  1. A ideia de teia social com que eles se definem tem um reflexo óbvio na forma como se comportam perante o fisco… cumprindo as suas obrigações religiosamente!
    Beijos.

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