Quintas de Leitura – Teatro do Campo Alegre

Faz hoje oito dias que as “Quintas de Leitura” no Teatro Campo Alegre no Porto comemoraram com um grandioso espectáculo, os 11 anos de existência. Na música, voltei a ter o prazer de ouvir os Best Youth (que estiveram em Guimarães 2012) e a conhecer Charles Sangnoir e At Freddy’s House. Para além da dança, destaco ainda os momentos de leitura por parte de Isaque Ferreira, Daniel Maia-Pinto Rodrigues, Pedro Lamares e os coletivos O Copo e Peixe Graúdo.

É sempre difícil conseguir bilhetes para este excelente programa que acontece uma quinta-feira por mês; o público é fiel e a sala esgota sempre. Mas ficam aqui os contactos:

Informações e reservas:226063000

e-mail:bilheteira@tca-porto.pt

blog: http://quintasdeleitura.blogspot.com

E agora se me permitem este “capricho”, vou transcrever na íntegra, um poema que foi recitado no evento,de Adília Lopes,  que é uma verdadeira delicia!…

Caprichos

Conheci uma menina
muito caprichosa a comer
tinha dias que só comia chocolate
ou então ovos mexidos
diziam dela está a chocolate
como se diz de Picasso
que teve uma fase azul
de uma vez gritou
que tinha fome de queijadas de Sintra
e de mais nada
partiu brinquedos
até que mandaram uma criada à Periquita
comprar-lhe queijadas
amigos da familia notavam
que uma criança tem de se habituar
a comer de tudo
não porque se seja a Rainha Isabel
que por uma questão de cortesia diplomática
teve de comer ratos no Punjab
nem porque esteja próximo um período de racionamento
mas porque é a comer do que não se gosta
que se aprende a saber do que se gosta
as crianças mimadas
acabam por escrever gostava de gostar de gostar
e contraem doenças infecciosas
com muita facilidade
esta apanhou tosse convulsa
e enquanto teve tosse convulsa
só comeu pombinhas de pão
um dia a padeira enganou-se
em vez de pombinhas trouxe vianinhas
e a mãe da menina
ao vê-la chorar como uma possessa
despediu a padeira
a menina durante a convalescença
refinou
tinha ódio ao pão com manteiga
todos estavam a par deste ódio
pois em casa da tia Balbina
só aceitava comer pão com manteiga
dizia pão têga
o que já não era próprio da sua idade
acontecia que se recusava a pronunciar
certos sons
está em não dizer man e ei
murmuravam na sala de visitas da tia Balbina
mas como quem fala de um prodígio
e não como quem diz coitadinha
depois de sete criadas terem sido despedidas
por não saberem cozinhar a preceito
pudim de beiço de vaca
apresentou-se uma que era extraordinária
a menina passou a tratá-la por Predilecta
a Predilecta compreendeu tão bem a menina
que no dia em que preparou com mais esmero
o prato preferido da menina
pudim de pardais assados em água
deitou no pudim um punhado quase mortal de arsénico

in “O Decote da Dama de Espadas”, Gota de Agua, 1988

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2 responses

  1. Fiquei muito ontente por ler mais um trabalho de AdiliaLopes.Acho-a criativa com um sentido de humor delicioso Não é pimba e também não é uma portuguesa piegas.Obrigada por este momento.Parabéns e continua….

    bjssss BAL

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